Série Eleições: o eleitor entre o real e o fabricado
A ascensão da Inteligência Artificial generativa desafia a confiança na autenticidade de conteúdos visuais e auditivos, com profundas implicações para as eleições. A facilidade de fabricar deepfakes cria um cenário onde distinguir o real do
Publicado em 26 de ago. de 2026 · Fonte: MIT Tech

A crescente sofisticação da Inteligência Artificial (IA) generativa tem transformado radicalmente a maneira como percebemos a realidade digital, especialmente em contextos eleitorais. Se antes uma fotografia ou um vídeo eram considerados provas incontestáveis, a facilidade atual de fabricar ou alterar conteúdos sintéticos, como deepfakes, introduziu uma profunda crise de confiança. Esta mudança tecnológica não afeta apenas a credibilidade de informações falsas, mas também lança dúvidas sobre a autenticidade de materiais verdadeiros, criando um ambiente onde discernir o real do fabricado se torna um desafio central para o eleitor.
O Dilema da Autenticidade em Tempos de Eleição
Durante períodos eleitorais, onde discursos, entrevistas e propagandas moldam a opinião pública, a proliferação de conteúdos falsos ou alterados pela IA ganha uma dimensão crítica. Um estudo de 2024 da Nature Communications, envolvendo pesquisadores do MIT e da Northwestern University, demonstrou que, embora participantes conseguissem identificar discursos políticos falsos melhor do que o acaso, estavam longe da infalibilidade. A avaliação humana se baseava em pistas audiovisuais que as IAs reproduzem com crescente perfeição, complicando a tarefa de verificação. A simples existência de deepfakes, inclusive, pode ser utilizada para desacreditar registros genuínos, criando uma "inversão do ônus da prova", onde quem produz um conteúdo autêntico se vê obrigado a comprovar sua veracidade.
Desafios Regulatórios e a Percepção Pública
Diante desse cenário, autoridades eleitorais buscam novas formas de controle. Nas eleições municipais de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de deepfakes para influenciar candidaturas e impôs regras para a identificação de conteúdos gerados por IA. Contudo, a regulamentação é apenas parte da solução. O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou dificuldades em monitorar conteúdos sintéticos durante a pré-campanha de 2024, especialmente pela velocidade de circulação e a atuação em ambientes digitais fechados. Segundo Marie Santini, fundadora do NetLab, a rápida popularização de ferramentas de IA generativa, acessíveis e de baixo custo, potencializa tanto a produção de falsificações quanto a dificuldade em comprovar a verdade.
- 41% dos brasileiros: Usuários de internet com 16 anos ou mais relatam contato diário com deepfakes.
- 44% dos jovens: Percentual entre a faixa etária de 16 a 24 anos que encontram deepfakes diariamente.
A preocupação não se limita à manipulação da percepção sobre candidatos. Santini alerta que tais conteúdos podem descredibilizar o próprio sistema eleitoral, alimentando narrativas de que instituições são mentirosas ou de que o processo é fraudulento. A responsabilidade por essa crise de confiança, segundo ela, não recai apenas sobre o usuário, mas também sobre as plataformas digitais, cujo modelo de negócios prioriza o engajamento e a circulação de conteúdo em detrimento da integridade da informação.
A integridade do voto, que por décadas focou na segurança da urna e na apuração, agora se desloca para um momento anterior: a formação da percepção do eleitor sobre a realidade. Em um mundo onde a verdade é contestada por algoritmos, a capacidade de preservar a confiança nas evidências que constroem a opinião pública se torna tão crucial quanto a segurança física do processo eleitoral.
Com informações de MIT Tech.
Perguntas frequentes
O que são deepfakes e como eles afetam as eleições?
Deepfakes são conteúdos de áudio, vídeo ou imagem criados ou alterados por Inteligência Artificial para parecerem reais. Eles podem manipular a percepção pública durante as eleições, difundindo informações falsas ou desacreditando conteúdos verdadeiros, impactando a decisão do eleitor.
Quais medidas o TSE está tomando para combater deepfakes nas eleições de 2024?
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas e estabeleceu regras para a identificação de conteúdos produzidos ou alterados por IA nas eleições de 2024.
Como a IA impacta a confiança do eleitor nas informações?
A facilidade de fabricar deepfakes abala a confiança de que imagens, vídeos e áudios representam os fatos, fazendo com que o eleitor questione a autenticidade de qualquer conteúdo. Isso cria uma "inversão do ônus da prova", onde é preciso provar a veracidade de um material genuíno.
Com informações de MIT Tech.
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