Quando a IA desenvolve um medicamento, quem leva o crédito?
Avanços em IA generativa na descoberta de medicamentos confrontam leis de propriedade intelectual, pois apenas humanos podem ser reconhecidos como inventores em patentes. Empresas como a Insilico Medicine utilizam a tecnologia para acelerar
Publicado em 26 de ago. de 2026 · Fonte: MIT Tech

A ascensão da inteligência artificial generativa na descoberta de medicamentos está confrontando as leis de propriedade intelectual com um dilema fundamental: quem detém o crédito por uma invenção criada por uma máquina? Empresas como a Insilico Medicine utilizam plataformas de IA para acelerar significativamente o desenvolvimento de novas moléculas, como o fez ao propor um medicamento promissor para fibrose pulmonar. Embora celebrem a capacidade da IA em gerar estruturas atômicas complexas com a mesma facilidade que um modelo de linguagem cria um texto, a realidade legal é bem diferente.
IA: Ferramenta de Descoberta, Não Inventora
Quando a Insilico Medicine precisou registrar a patente da nova estrutura química desenvolvida por sua IA, o nome da inteligência artificial não apareceu em lugar algum. Em vez disso, a patente listou cinco inventores humanos, incluindo o CEO Alex Zhavoronkov. Essa discrepância expõe uma questão central na legislação atual: independente da importância da IA para a descoberta, apenas seres humanos podem ser reconhecidos legalmente como inventores. Essa posição foi reforçada em tribunais dos EUA, que em 2022 concluíram que a lei descreve um inventor como um “indivíduo”, ou seja, um ser humano, descartando “questões metafísicas” sobre o status da IA.
A jurista Sarah Korman, diretora jurídica da Isomorphic Labs – uma empresa da Alphabet focada em IA para curas –, reiterou em um evento da MIT Technology Review que a presença de um inventor humano é indispensável para a validade de uma patente. Ela ressalta que, embora as leis precisem evoluir para acompanhar o ritmo da IA, o consenso atual é que máquinas, por não serem pessoas, não podem ser inventoras. O próprio Escritório de Patentes e Marcas dos EUA reconhece que um sistema de IA pode realizar atos que, se feitos por um ser humano, seriam considerados atividade inventiva, mas ainda assim o considera uma ferramenta.
O Futuro da Inovação e a Proteção Legal
A exclusão da IA como inventora gera preocupações, especialmente quanto ao incentivo à inovação. Ryan Abbott, advogado que defendeu um caso pro bono para reconhecer uma IA como inventora, argumenta que o objetivo das leis de propriedade intelectual é promover o progresso. Se resultados gerados por IA forem excluídos da proteção, isso poderia desestimular o desenvolvimento em áreas críticas como a farmacêutica. O Escritório de Direitos Autorais dos EUA já adota uma postura semelhante, recusando direitos autorais para obras geradas exclusivamente por IA, o que já causa apreensão em setores como o cinematográfico.
Atualmente, o Escritório de Patentes dos EUA adota uma abordagem de não exigir a menção da IA nas solicitações, tratando-a como uma mera “ferramenta” – comparável a uma calculadora. Por enquanto, as empresas pioneiras no desenvolvimento de medicamentos com IA garantem que humanos estejam ativamente envolvidos e documentem meticulosamente esse processo. Zhavoronkov, da Insilico, explica que químicos humanos ainda são responsáveis por sintetizar, testar e aprovar os medicamentos, sendo eles os indicados nas patentes. A questão de até onde a intervenção humana precisa ir para justificar o título de inventor, especialmente quando a IA se tornar ainda mais autônoma, permanece em aberto e promete ser palco de futuras batalhas judiciais.
Com informações de MIT Tech.
Perguntas frequentes
Por que a IA não pode ser nomeada como inventora em uma patente?
A legislação atual de propriedade intelectual, especialmente nos EUA, define um inventor como um 'indivíduo', interpretado como um ser humano. Máquinas, por não serem pessoas, não se qualificam legalmente para esse reconhecimento.
Qual o impacto dessa limitação legal para empresas que usam IA na pesquisa?
Embora a IA seja crucial para a descoberta, a necessidade de ter inventores humanos em patentes exige que as empresas mantenham humanos envolvidos e documentem sua contribuição, podendo gerar desafios legais futuros e potencialmente desestimular a inovação se os resultados de IA não forem suficientemente protegidos.
Como as empresas contornam a regra de que apenas humanos podem ser inventores?
As empresas garantem que pesquisadores humanos estejam ativamente envolvidos no processo, como na síntese, testes e aprovação de medicamentos. Esses indivíduos são então nomeados nas patentes, justificando a intervenção humana no desenvolvimento da invenção.
Com informações de MIT Tech.
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